quarta-feira, 11 de julho de 2007

A velha Grande Questão

"- Você seguiu seu caminho - disse Brunet. - Você é filho de burgueses, não pode vir até nós assim sem mais nem menos, tem que libertar-se. Agora já o conseguiste. És livre. Mas para que te serve esta liberdade, se não para tomar posição? Você gastou trinta e cinco anos na tua limpeza e o resultado dela é um vácuo. És um corpo estranho, sabes - continuou com um sorriso amigo. - Vives no ar, cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado, flutuas, és um abstrato, um ausente. Não deve ser muito divertido todos os dias...
- Não - disse Mathieu - nem sempre é divertido.
Aproximou-se de Brunet e sacudiu-o pelos ombros com força. Gostava imensamente dele.
- Meu caro aliciador de recrutas - disse - minha cara puta velha, gosto que digas tudo isso.
Brunet sorriu distraído. Seguiu sua idéia. Disse:
- Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo te será resolvido.
- Você me fala como um bom cura - disse Mathieu rindo. - Seriamente, meu caro, não seria um sacrifício. Bem sei que tudo me seria devolvido, carne, sangue, paixões de verdade. Escuta Brunet, acabei por perder o sentido da realidade, nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro.
(...)
-Você é bem real - disse Mathieu. - Tudo aquilo que você toca parece real. desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e me enoja.
Acrescentou subitamente:
- És um homem.
- Um homem? - Brunet indagou surpreso. - O contrário fora inquietante. Que quer dizer com isso?
- Nada, a não ser que escolheste ser um homem.
Um homem de músculos fortes e elásticos, que pensava por meio de curtas e severas verdades, um homem reto, sóbrio, seguro de si, terreno refratário às angélicas tentações da arte, da psicologia, da política, um homem inteiriço, um homem apenas. E Mathieu ali estava, diante dele, indeciso, mal envelhecido, mal cozido, assediado por todas as vertigens do inumano. E pensava: "Eu não pareço um homem".
Brunet levantou-se.
- Pois faz como eu - disse. - Que te impede de fazê-lo? Ou imaginaste que poderás viver a vida inteira entre parêntesis?"



SARTRE, Jean- Paul
A idade da razão

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