Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Pequena homenagem não-autorizada
"E eu penso isso tudo quando há alguém do meu lado e o silêncio da noite não me deixa dormir. Aquela divisão de travesseiro interfere, me perturba, e do meu tradicional desmaio me vejo voltada à insônia. Não é bem uma insônia, é o meu descompasso cardíaco insuficiente que não me relaxa, a dúvida que pulsa, aquela paz concretizada naquela outra pessoa e que não se estende a mim. Frequentemente abro os olhos e demoro a reconhecer quem é, não porque tenham sido muitos - talvez justamente por não terem sido tantos, permaneço incrédula dianteda confiança naquele dormir.
Não consigo. Cogito vagamente que aquele abandono me é inatingível, a mim resta o outro lado, a mente sempre tensa de hipóteses, e tudo me deixa sem ar. Há sempre uma luz acesa que culpo, uma luz acesa caleidoscópia e reflexiva que ricocheteia meus lados obscuros. Gostaria de ignorá-los sobre o colchão. Não consigo. É tudo quente e macio, o mundo pausa nestas noites, tudo se suspende, choro, raiva, sessão de filmes, para renascer resignado em seguida. Eu não. Sou incapaz. Penso que esta não é a minha matéria, confio apenas em mim, durmo apenas comigo e meus espectros - e no entanto poderia dizer tantas coisas aos que dormem!
Repetiria para eles como são lindos e como os invejo, contaria histórias mil, todas verdadeiras, oriundas desta quebra de espaço que é a madrugada. Diria tudo, sem omitir algo que seja, neste horário em que nada beira o esdrúxulo e tudo ganha uma aura de segredo. Não são segredos. Sção sempre as mesmas histórias amontoadas num colchão. Me orgulho das pessoas que são, sem reticências, eu declararia todo o meu afeto com o aval da escuridão e usurpando sua doçura, sua maciez. e meu amor transcende minha fraqueza, ele aparece inteiriço porque é apenas palpável. Talvez a luz o corrompa."
Não consigo. Cogito vagamente que aquele abandono me é inatingível, a mim resta o outro lado, a mente sempre tensa de hipóteses, e tudo me deixa sem ar. Há sempre uma luz acesa que culpo, uma luz acesa caleidoscópia e reflexiva que ricocheteia meus lados obscuros. Gostaria de ignorá-los sobre o colchão. Não consigo. É tudo quente e macio, o mundo pausa nestas noites, tudo se suspende, choro, raiva, sessão de filmes, para renascer resignado em seguida. Eu não. Sou incapaz. Penso que esta não é a minha matéria, confio apenas em mim, durmo apenas comigo e meus espectros - e no entanto poderia dizer tantas coisas aos que dormem!
Repetiria para eles como são lindos e como os invejo, contaria histórias mil, todas verdadeiras, oriundas desta quebra de espaço que é a madrugada. Diria tudo, sem omitir algo que seja, neste horário em que nada beira o esdrúxulo e tudo ganha uma aura de segredo. Não são segredos. Sção sempre as mesmas histórias amontoadas num colchão. Me orgulho das pessoas que são, sem reticências, eu declararia todo o meu afeto com o aval da escuridão e usurpando sua doçura, sua maciez. e meu amor transcende minha fraqueza, ele aparece inteiriço porque é apenas palpável. Talvez a luz o corrompa."
SOARES, Cecília
(ou Cès Lisa)
(ou Cès Lisa)
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Cecília, querida, espero que perdoe o pequeno abuso de postar seu texto sem pedir antes. Mas é que não podia não fazê-lo. Enquanto eu o digitava, ia lamentando, com uma invejinha que é quase bonita, você já te-lo escrito. Do fundo do meu estômago inseguro e medroso, era o que eu gostaria de ter escrito e então estaria já satisfeita. O bom, e isso é muito, é que ao me privar da vaidade de ter escrito, me dá um presente que é da maior delicadeza do mundo: a identificação das almas. É um prazer me ver racionalizada (ou melhor seria dizer sentida e digerida?) por outra alma. Especialmente a sua.
: ) Profundamente encantada,
uma reverência e incontáveis beijinhos.
: ) Profundamente encantada,
uma reverência e incontáveis beijinhos.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Clarice Lispector is God!
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. e voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la - , na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora?"
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la - , na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora?"
A paixão segundo G.H.
Clarice Lispector
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Clarice Lispector
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Se você não perde uma terceira perna pelo menos umas 3 vezes por ano, então, honey, você não está vivendo.
: )
: )
domingo, 26 de agosto de 2007
Let Go
" So let go, jump in
Oh well, whatcha waiting for?
It's alright
'cause there's beauty in the breakdown
So let go, just get in
Oh, it's so amazing here
It's alright
'cause there's beauty in the breakdown"
Frou Frou
É ou não é a coisa mais bonitinha do dia?
Oh well, whatcha waiting for?
It's alright
'cause there's beauty in the breakdown
So let go, just get in
Oh, it's so amazing here
It's alright
'cause there's beauty in the breakdown"
Frou Frou
É ou não é a coisa mais bonitinha do dia?
sábado, 25 de agosto de 2007
Dos motivos não ditos
Minha insegurança é uma aranha.
E se alimenta tal qual uma aranha. Injeta suas enzimas nas paixões, nos planos e em tudo o mais que cair em sua teia, para então sugar tudo o que os dá forma e sentido, deixando pra trás só a casca vazia do que fora uma beleza de contornos bem definidos.
Minha inseguraça se move tal qual uma aranha. Silenciosa e rápida. Quando vemos, ela já está lá, de teia tecida. O caminho percorrido e o trabalho mudo, o envolvimento gradual de cada ponto significativo, disto não se dá conta. Mas então já tudo está desesperadoramente ligado, e qualquer movimento desestruturaria o todo.
Minha insegurança me assusta tal qual uma aranha. O pavor que me causa me desequilibra a tal ponto que abandono meu quarto à noite e meus amantes em camas desfeitas.
E, como quando era criança denunciava aos adultos eventuais aranhas, ainda hoje denuncio aos outros a minha. Quando me ouvem, procuram contrariados em minha argumentação a tal aranha como procuravam os adultos entre meus brinquedos.
Mas todos têm sempre a mesma pressa. Não compreendem os movimentos e as artes esquivadoras das aranhas. Elas têm seu sentido de oportunidade. Nunca se mostram quando há sol e sons, há ares, passos e vozes. É de noite que surgem, a andar pelas paredes, quando todos já estão dormindo.
Um dia, quando eu me perder num medo ou numa solidão, essa aranha virá a mim. Com seu esqueleto de quitina e seu passo secreto, me envolverá por completo em seus fios.
E então estará consumado.
Minha inseguraça se move tal qual uma aranha. Silenciosa e rápida. Quando vemos, ela já está lá, de teia tecida. O caminho percorrido e o trabalho mudo, o envolvimento gradual de cada ponto significativo, disto não se dá conta. Mas então já tudo está desesperadoramente ligado, e qualquer movimento desestruturaria o todo.
Minha insegurança me assusta tal qual uma aranha. O pavor que me causa me desequilibra a tal ponto que abandono meu quarto à noite e meus amantes em camas desfeitas.
E, como quando era criança denunciava aos adultos eventuais aranhas, ainda hoje denuncio aos outros a minha. Quando me ouvem, procuram contrariados em minha argumentação a tal aranha como procuravam os adultos entre meus brinquedos.
Mas todos têm sempre a mesma pressa. Não compreendem os movimentos e as artes esquivadoras das aranhas. Elas têm seu sentido de oportunidade. Nunca se mostram quando há sol e sons, há ares, passos e vozes. É de noite que surgem, a andar pelas paredes, quando todos já estão dormindo.
Um dia, quando eu me perder num medo ou numa solidão, essa aranha virá a mim. Com seu esqueleto de quitina e seu passo secreto, me envolverá por completo em seus fios.
E então estará consumado.
sábado, 18 de agosto de 2007
Post desprovido de nome, utilidade e significado
Se o blog tivesse porta, provavelmente eu bateria nela antes de postar, limparia meus pés num provável tapete e pediria licença acenando com a cabeça. Faz tanto tempo que não escrevo nada de verdade aqui que é quase como se não fosse mais meu. Eu diria que tenho sido negligente ao administrá-lo, mas isso é quase indecente, se pensarmos no que realmente representa estar sendo negligente com algo. Ou melhor, se pensarmos na necessidade de uma cota mínima de importância a ponto de ser possível negligenciar. É até meio vergonhoso ter cogitado a possibilidade de se negligenciar um blog. Coisa de pessoa sem vida social... Blog já é coisa de pessoa sem vida social... Um blog que ninguém lê então!
Que seja, a questão não é essa. Nem outra, eu devo dizer. Hoje não há questão, não há nem sequer um assunto específico, a não ser a vontade esquisita de falar e falar supondo interlocutores dos quais eu posso tranquilamente ignorar as reações imediatas ao que digo. Há os ouvidos, mas não há frases de resposta nem expressões de reprovação. Essa sutileza e esse charme que o blog tem é que não me deixam abandoná-lo. Blogs são um dos poucos lugares socialmente aceitos para egocentrismos desse tipo. Latas de lixo sociais.
E se não fosse a preguiça absoluta desse instante, eu me deixaria seduzir por esse charme e vomitaria um monte de coisa aqui.
Que seja, a questão não é essa. Nem outra, eu devo dizer. Hoje não há questão, não há nem sequer um assunto específico, a não ser a vontade esquisita de falar e falar supondo interlocutores dos quais eu posso tranquilamente ignorar as reações imediatas ao que digo. Há os ouvidos, mas não há frases de resposta nem expressões de reprovação. Essa sutileza e esse charme que o blog tem é que não me deixam abandoná-lo. Blogs são um dos poucos lugares socialmente aceitos para egocentrismos desse tipo. Latas de lixo sociais.
E se não fosse a preguiça absoluta desse instante, eu me deixaria seduzir por esse charme e vomitaria um monte de coisa aqui.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
sábado, 4 de agosto de 2007
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
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