sábado, 25 de agosto de 2007

Dos motivos não ditos

Minha insegurança é uma aranha.
E se alimenta tal qual uma aranha. Injeta suas enzimas nas paixões, nos planos e em tudo o mais que cair em sua teia, para então sugar tudo o que os dá forma e sentido, deixando pra trás só a casca vazia do que fora uma beleza de contornos bem definidos.

Minha inseguraça se move tal qual uma aranha. Silenciosa e rápida. Quando vemos, ela já está lá, de teia tecida. O caminho percorrido e o trabalho mudo, o envolvimento gradual de cada ponto significativo, disto não se dá conta. Mas então já tudo está desesperadoramente ligado, e qualquer movimento desestruturaria o todo.

Minha insegurança me assusta tal qual uma aranha. O pavor que me causa me desequilibra a tal ponto que abandono meu quarto à noite e meus amantes em camas desfeitas.

E, como quando era criança denunciava aos adultos eventuais aranhas, ainda hoje denuncio aos outros a minha. Quando me ouvem, procuram contrariados em minha argumentação a tal aranha como procuravam os adultos entre meus brinquedos.

Mas todos têm sempre a mesma pressa. Não compreendem os movimentos e as artes esquivadoras das aranhas. Elas têm seu sentido de oportunidade. Nunca se mostram quando há sol e sons, há ares, passos e vozes. É de noite que surgem, a andar pelas paredes, quando todos já estão dormindo.

Um dia, quando eu me perder num medo ou numa solidão, essa aranha virá a mim. Com seu esqueleto de quitina e seu passo secreto, me envolverá por completo em seus fios.

E então estará consumado.



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