terça-feira, 28 de agosto de 2007

Pequena homenagem não-autorizada

"E eu penso isso tudo quando há alguém do meu lado e o silêncio da noite não me deixa dormir. Aquela divisão de travesseiro interfere, me perturba, e do meu tradicional desmaio me vejo voltada à insônia. Não é bem uma insônia, é o meu descompasso cardíaco insuficiente que não me relaxa, a dúvida que pulsa, aquela paz concretizada naquela outra pessoa e que não se estende a mim. Frequentemente abro os olhos e demoro a reconhecer quem é, não porque tenham sido muitos - talvez justamente por não terem sido tantos, permaneço incrédula dianteda confiança naquele dormir.

Não consigo. Cogito vagamente que aquele abandono me é inatingível, a mim resta o outro lado, a mente sempre tensa de hipóteses, e tudo me deixa sem ar. Há sempre uma luz acesa que culpo, uma luz acesa caleidoscópia e reflexiva que ricocheteia meus lados obscuros. Gostaria de ignorá-los sobre o colchão. Não consigo. É tudo quente e macio, o mundo pausa nestas noites, tudo se suspende, choro, raiva, sessão de filmes, para renascer resignado em seguida. Eu não. Sou incapaz. Penso que esta não é a minha matéria, confio apenas em mim, durmo apenas comigo e meus espectros - e no entanto poderia dizer tantas coisas aos que dormem!

Repetiria para eles como são lindos e como os invejo, contaria histórias mil, todas verdadeiras, oriundas desta quebra de espaço que é a madrugada. Diria tudo, sem omitir algo que seja, neste horário em que nada beira o esdrúxulo e tudo ganha uma aura de segredo. Não são segredos. Sção sempre as mesmas histórias amontoadas num colchão. Me orgulho das pessoas que são, sem reticências, eu declararia todo o meu afeto com o aval da escuridão e usurpando sua doçura, sua maciez. e meu amor transcende minha fraqueza, ele aparece inteiriço porque é apenas palpável. Talvez a luz o corrompa."

SOARES, Cecília
(ou Cès Lisa)

----------------------------------------------------------------------

Cecília, querida, espero que perdoe o pequeno abuso de postar seu texto sem pedir antes. Mas é que não podia não fazê-lo. Enquanto eu o digitava, ia lamentando, com uma invejinha que é quase bonita, você já te-lo escrito. Do fundo do meu estômago inseguro e medroso, era o que eu gostaria de ter escrito e então estaria já satisfeita. O bom, e isso é muito, é que ao me privar da vaidade de ter escrito, me dá um presente que é da maior delicadeza do mundo: a identificação das almas. É um prazer me ver racionalizada (ou melhor seria dizer sentida e digerida?) por outra alma. Especialmente a sua.


: ) Profundamente encantada,
uma reverência e incontáveis beijinhos.

Um comentário:

CèS disse...

Qualé, bobinha, você sabe que eu te amo!

É uma baita de uma homenagem, isso sim.