Não quero o querível, o querível me nauseia. Quero é querer sem a crueldade imperdoável de ter que avaliar o quanto me permite querer o que de fato quero. Quero querer o valor incalculável do que nada vale. O valor inestimado e ignorado do que de nada serve. Não quero querer meios pra querer, os meios que são só adiamentos do fim. Cansei, profunda e irreversivelmente, desse querer indireto e mentiroso. O fim é agora.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
"Eu sou um pouco Charlie Brown" versão onírica
Sonhei que era sufocada por um amigo brincando de fazer massagem cardíaca. Eu tentava dizer que estava mesmo sufocando, tentava empurrá-lo mas não tinha força e ele só apertava mais, mais, mais! Quando ele parou, eu só chorava, abria a boca mas o som não saía. Tentava agitar os braços mas não podia. Era como se meus pulmões tivessem sido tão comprimidos que o ar não conseguisse mais entrar neles. E era estranho, me sentia extremamente humilhada. As pessoas em volta discutiam o que aconteceu sem preocupação nenhuma enquanto eu tentava respirar quase sem conseguir. Depois me levavam pra um lugar onde tinha um bolo, algumas outras pessoas conhecidas e muitas crianças que nunca vi. Era meu aniversário e eu não conseguia abrir a boca, só chorava atrás do bolo enquanto todo mundo cantava parabéns. Eu tava morrendo e ninguém percebia. Pareciam zumbis, robôs, sei lá, qualquer coisa tão presa ao ritual que não conseguiam ver que eu caía no chão no meio da coisa toda.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
(Manoel de Barros)
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
(Manoel de Barros)
"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."
(Alberto Caeiro)
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."
(Alberto Caeiro)
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
sábado, 24 de novembro de 2007
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Não fosse o sertão,
essas terras vazias,
paragens fantasmas
de oco e poeira...
Não fosse o buraco,
mil margens sem ponte
no peito da gente,
ela pudesse chegar...
Há que se fazer caminho!
há que se abrir estrada!
de chão ou de ferro, que importa,
na carne e na alma.
Talharei eu uma via estreita
com minhas unhas famintas,
tão estreita que ela não possa,
no meio, dar meia-volta.
essas terras vazias,
paragens fantasmas
de oco e poeira...
Não fosse o buraco,
mil margens sem ponte
no peito da gente,
ela pudesse chegar...
Há que se fazer caminho!
há que se abrir estrada!
de chão ou de ferro, que importa,
na carne e na alma.
Talharei eu uma via estreita
com minhas unhas famintas,
tão estreita que ela não possa,
no meio, dar meia-volta.
sábado, 17 de novembro de 2007
terça-feira, 13 de novembro de 2007
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
terça-feira, 6 de novembro de 2007
sábado, 3 de novembro de 2007
Da mudança
Achei merecido um post exclusivo para tratar da minha arte paintiana que agora to exibindo aí. Achei merecido, não porque valha exaltar qualquer coisa nisso além do fato de apenas 3 letras serem ilegíveis. Mas porque uma explicação deve ser dada, ou melhor, não deve, mas é bom que seja dada porque me redime do incompreensível do ridículo. E, você sabe, o ridículo incompreensível definitivamente não vale a pena. Então ao que interessa. Escrever no paint usando o lápis é a segunda coisa no meu top 3 de coisas dificílimas-pra-não-dizer-impossíveis. (A primeira é ter um relacionamento pleno e feliz e a terceira é emagrecer antes do verão.) E por isso achei que representava bem o quanto é difícil pra mim escrever qualquer coisa. Nada aqui é natural, nada aqui é imediato. Tudo tem o peso de um trabalho meticuloso que, na maior parte das vezes, tem como único mérito sinalizar uma intenção e um esforço.
E as letrinhas coloridas, bom, elas são felizes, não são? : )
E as letrinhas coloridas, bom, elas são felizes, não são? : )
Psicofloria
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Resgatando já postados
"- Você seguiu seu caminho - disse Brunet. - Você é filho de burgueses, não pode vir até nós assim sem mais nem menos, tem que libertar-se. Agora já o conseguiste. És livre. Mas para que te serve esta liberdade, se não para tomar posição? Você gastou trinta e cinco anos na tua limpeza e o resultado dela é um vácuo. És um corpo estranho, sabes - continuou com um sorriso amigo. - Vives no ar, cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado, flutuas, és um abstrato, um ausente. Não deve ser muito divertido todos os dias...
- Não - disse Mathieu - nem sempre é divertido.
Aproximou-se de Brunet e sacudiu-o pelos ombros com força. Gostava imensamente dele.
- Meu caro aliciador de recrutas - disse - minha cara puta velha, gosto que digas tudo isso.
Brunet sorriu distraído. Seguiu sua idéia. Disse:
- Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo te será resolvido.
- Você me fala como um bom cura - disse Mathieu rindo. - Seriamente, meu caro, não seria um sacrifício. Bem sei que tudo me seria devolvido, carne, sangue, paixões de verdade. Escuta Brunet, acabei por perder o sentido da realidade, nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro.
(...)
-Você é bem real - disse Mathieu. - Tudo aquilo que você toca parece real. desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e me enoja.
Acrescentou subitamente:
- És um homem.
- Um homem? - Brunet indagou surpreso. - O contrário fora inquietante. Que quer dizer com isso?
- Nada, a não ser que escolheste ser um homem.
Um homem de músculos fortes e elásticos, que pensava por meio de curtas e severas verdades, um homem reto, sóbrio, seguro de si, terreno refratário às angélicas tentações da arte, da psicologia, da política, um homem inteiriço, um homem apenas. E Mathieu ali estava, diante dele, indeciso, mal envelhecido, mal cozido, assediado por todas as vertigens do inumano. E pensava: "Eu não pareço um homem".
Brunet levantou-se.
- Pois faz como eu - disse. - Que te impede de fazê-lo? Ou imaginaste que poderás viver a vida inteira entre parêntesis?"
- Não - disse Mathieu - nem sempre é divertido.
Aproximou-se de Brunet e sacudiu-o pelos ombros com força. Gostava imensamente dele.
- Meu caro aliciador de recrutas - disse - minha cara puta velha, gosto que digas tudo isso.
Brunet sorriu distraído. Seguiu sua idéia. Disse:
- Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo te será resolvido.
- Você me fala como um bom cura - disse Mathieu rindo. - Seriamente, meu caro, não seria um sacrifício. Bem sei que tudo me seria devolvido, carne, sangue, paixões de verdade. Escuta Brunet, acabei por perder o sentido da realidade, nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro.
(...)
-Você é bem real - disse Mathieu. - Tudo aquilo que você toca parece real. desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e me enoja.
Acrescentou subitamente:
- És um homem.
- Um homem? - Brunet indagou surpreso. - O contrário fora inquietante. Que quer dizer com isso?
- Nada, a não ser que escolheste ser um homem.
Um homem de músculos fortes e elásticos, que pensava por meio de curtas e severas verdades, um homem reto, sóbrio, seguro de si, terreno refratário às angélicas tentações da arte, da psicologia, da política, um homem inteiriço, um homem apenas. E Mathieu ali estava, diante dele, indeciso, mal envelhecido, mal cozido, assediado por todas as vertigens do inumano. E pensava: "Eu não pareço um homem".
Brunet levantou-se.
- Pois faz como eu - disse. - Que te impede de fazê-lo? Ou imaginaste que poderás viver a vida inteira entre parêntesis?"
SARTRE, Jean- Paul
A idade da razão
A idade da razão
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