Se vestiu com aquele tédio e cinismo de quem o faz por obrigação. Por algo de responsabilidade com sua imagem curvou os cílios e passou rímel. Estava vermelha demais pelo calor, mas não valia a pena disfarçar com maquiagem. O resultado seria uma pele ainda mais brilhante e peguenta e pó derretido. Passou o batom de sempre, porque era simples e neutro.
Seguiu para a reunião. Não seria nenhuma dificuldade sua apresentação, pelo contrário. Uma oportunidade de fortalecer a posição de confiança e credibilidade que adquiriu nas últimas semanas. Pensou se deveria levar a mochila. O notebook pesava tanto. Levou.
O encontro depois não lhe causava nada e estava satisfeita com isso. O cara era o tipo de cara apaixonável para o que ela já tinha sido na adolescência, mas isso passou. Era alto e mais velho, falava de política e fazia pós-graduação. Parabéns, mas não impressiona, não é nada demais. Isso eu faço melhor, pensou. Nenhuma ligação mais profunda que um sexo razoavelmente bom.
É só até o próximo, pensou. O próximo estava perto e por isso não sairia mais com esse depois de hoje. Mas sexo e comida são seus fracos e esse cozinha e fode por horas. Difícil recusar numa quinta feira desinteressante.
Numa vidraça espelhada percebeu que o resultado era melhor que o esperado: aquele vestido era mágico. O encontro não merecia tanto assim, mas fica de brinde. Se for, se não desistir até lá. Faz calor demais pra se esfregar em alguém num cômodo sem ar condicionado. Mas droga, é sexo. Como dispensar?
Ele vai cozinhar o jantar, melhor quando chegar pular em cima dele antes que possa sugerir comer. Não entende como alguém pode gostar de comer antes do sexo, ao invés do contrário. Nesse caso, inverter a ordem ainda tinha uma vantagem adicional, pelo que já havia testado: ser servida por um "garçom" de cueca boxer.
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